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sexta-feira, dezembro 18, 2015

(Ex)citações de fim de semana*

" O meu bem mais precioso é o cérebro".
Marinho Borges

segunda-feira, março 09, 2015

Duas fábricas de calçado abrem em Março em Cinfães. E em Resende?

Está prevista para Março a entrada em funcionamento de duas fábricas de calçado em Cinfães, que criarão no futuro 200 postos de trabalho. Um número que será inferior nos primeiros meses de laboração. As fábricas, uma das quais do grupo "Carité", beneficiaram de incentivos que a autarquia lançou para captar investimento. Já lá estão instaladas mais duas unidades do sector do calçado, uma com 24 trabalhadores, outra com 22.
Com uma taxa de desemprego muito elevada, a Câmara de Cinfães procurou no sector do calçado atenuar este drama.
E, no concelho de Resende, quais são as iniciativas que a autarquia tem desenvolvido para atrair investimento e criar postos de trabalho? Se Cinfães está a conseguir, Resende não consegue porquê? 
Caso continue tudo na mesma será a desertificação. Quem quer ter filhos? Como podem os mais novos continuar a viver no nosso concelho?

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Trabalho

"O mais difícil no trabalho é ter de aturar os caprichos dos patrões", dizia muitas vezes mais ou menos isto Alfredo Borges, meu pai.
Trabalhou afincadamente até ao fim dos seus dias, mas abençoou o dia em que pôde fazê-lo sem o jugo de ninguém. 
Esse dia chegou felizmente hoje para mim. Levo testemunhos de inesquecível amizade e de  óptimas lições de companheirismo. O quanto me deram nunca poderá ser retribuído.

quarta-feira, maio 15, 2013

Navalha de Occam

Vivemos da palavra. O mundo é inteligível através da palavra. Somos a palavra, que deve ser usada com parcimónia. O que é simples deve permanecer simples e o complexo tornar-se acessível.
E as palavras precisam de silêncio para que se encontre a palavra certa, a palavra exacta, a palavra necessária.
A palavra justa vale por si. Não precisa de comentários nem de comentadores. 

quarta-feira, maio 08, 2013

Andar para trás

Muitas pessoas expressam o desejo de voltar a ser mais novas. Por mim, faço tudo para não ver a vida voltar para trás. 

quinta-feira, setembro 20, 2012

Morreu a D. Adelaide, das Quintãs

Morreu ontem a D. Adelaide, vizinha e grande amiga lá de casa, de toda a família. A afeição era mútua. Tinha feito 86 anos no passado dia 18 de Julho.
Teve uma vida dura e difícil. Mas tinha duas qualidades,  que  guardo. A alegria de viver E o prazer de repartir o pouco que tinha (para ela tudo lhe sobrava). Vou ter muitas saudades.
Com a D. Adelaide (e com o que representava) vai-se um "certo" mundo, que pouco a pouco vai ficando despovoado. E é entre "esse " mundo e neste mundo que terei de viver.

quinta-feira, maio 24, 2012

Imortalidade

Robert Walser foi um escritor suíço de língua alemã, que viria a morrer num asilo psiquiátrico, onde passara os últimos 23 anos da sua vida, tendo aí sido internado com 50 anos. Concluíra que nunca faria o suficiente para garantir a imortalidade. A um escritor que um dia o fora visitar e lhe perguntara se escrevia, respondeu: “Não estou aqui para escrever, mas para enlouquecer.”
Todas a produção humana, por mais genial que seja, perecerá um dia, obviamente. Contudo, as vidas exemplares, que nos ajudam a dar um sentido à vida, e as obras de grande valor estético, que nos empolgam, pré-anunciam ou pertencem à ordem da imortalidade. Também e sobretudo as pessoas, que anonimamente contribuem para um mundo melhor, o fazem porque confiam nos outros e no futuro, condição e semente de eternidade.

segunda-feira, maio 21, 2012

Coimbra/Académica: a realização de um sonho

Coimbra exerceu um fascínio indescritível a partir dos começos da minha juventude. Quando decidi tirar um curso superior, a escolha recaiu obviamente na Universidade de Coimbra. Foram cinco anos vividos à medida dos dias e do futuro; felizes. Depois, poder trabalhar e realizar-me nesta cidade foi a taluda.
Por isso, a Taça de Portugal, ontem ganha pela Académica, enche-me de brio.
Nas ausências, só quero voltar para Coimbra,  como a bem amada. Longe das encostas da serra de Montemuro e do vale do Douro que me impregnam , anseio por regressar a Resende, terra mãe.

quinta-feira, março 01, 2012

Sentido da vida

Estou convencido que quem está de bem com a vida é porque já encontrou o sentido da vida.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Outra vez

Em tempos, tudo se aproveitava. Do velho se fazia novo. Mudavam-se colarinhos gastos das camisas e colocavam-se punhos do avesso. Os alfaiates davam uma segunda vida aos casacos, virando-os também do avesso. As calças remendadas e as botas ou sapatos com  sucessivas meias solas passavam para os irmãos. A auto-sustentação era a regra, mas criando emprego no seio das pequenas comunidades, como soqueiros, sapateiros, alfaiates e costureiras. O primeiro par de sapatos, o primeiro  fato, a primeira caneta eram dádivas marcantes e felizes.Frigoríficos e televisores  eram luxos inexistentes.
Lutaram, sofrendo privações pelos filhos, dotando-os de qualificações que eles não tiveram.
Muitos experienciaram tudo isto, esperando uma tranquilidade merecida. Inesperadamente, e imerecidamente, espera-os o cálice de um novo fel.

domingo, janeiro 22, 2012

Mínimos e máximos

Sempre trabalhei para ultrapassar os mínimos. Mas nunca me preocupei em bater os máximos. Atingir os máximos pressupõe medições e recordes, que desgastam, trocidam e excluem.
O meu forte não é o cálculo. Prefiro a qualidade. E  sou pela inclusão.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Balanço de 2011

No plano material, aprendi a viver com o essencial, que não me faltou.  No plano moral/relacional, contribuí com o suficiente,  esperando receber o mesmo, mas fui bafejado com mais.

terça-feira, novembro 15, 2011

A propósito da imagem “ Santa Ana ensinando Maria a ler”

O jornal Público tem vindo a divulgar no suplemento P2 “100 Tesouros da Arte Sacra Nacional”. O de hoje é uma estátua do séc. XVIII, em madeira talhada, dourada, estofada e policromada, 63,5x39cm, que integra o rico património da diocese de Bragança-Miranda. Na representação, Nossa Senhora-menina debruça-se sobre o livro que está no colo da mãe, parecendo não se limitar a ouvir, pois faz um gesto de entendimento, como refere o Público.
Só há relativamente pouco tempo soube, pelo Anselmo, que existe uma imagem semelhante sobre o mesmo tema na sacristia do Santuário dos Remédios, em Lamego, como pode ser testemunhado pela foto. Esta representação simboliza  muita coisa: que Nossa Senhora, apresentada como exemplo de sabedoria,  discernimento e de busca de aperfeiçoamento, aprendeu a ler com o objectivo sobretudo de melhor poder interpretar e compreender as Escrituras (presume-se). Mas foi exemplo que não fortificou no seio da Igreja, pois, neste aspecto, foi amplamente cultivada e incentivada a iliteracia bíblica, o que talvez ajude a explicar a retirada destas imagens para as sacristias ou outros locais discretos.  Esta (relativa) ignorância e falta de debate relativamente à Bíblia não ajuda nada a ler criticamente e de forma esclarecida o “Último Segredo”, de José Rodrigues dos Santos.
Anselmo Borges defende a existência da cátedra do estudo da Bíblia nas Universidades Portuguesas, tal como acontece na Alemanha. E não tem fugido ao debate, como aconteceu no Encontro Regional dos Antigos Alunos da Sociedade Missionária da Boa Nova, realizado no passado domingo em Valadares, e que pode ver e ouvir aqui.

domingo, outubro 23, 2011

50 anos da entrada no Seminário do Convento de Cristo

 No passado dia 16 de Outubro, há precisamente 8 dias, realizou-se o encontro dos antigos alunos da Sociedade Missionária que entraram no então Seminário do Convento de Cristo, em Tomar, há 50 anos, ou seja no dia 2 de Outubro de 1961. Entraram então 80 crianças, todas com cerca de 11 anos, provenientes sobretudo do Minho,  das Beiras e de Trás-os-Montes.
Foi um reencontro memorável. A propósito, fica aqui link)  o registo da aventura da minha entrada no Seminário de Tomar (Convento de Cristo) há 50 anos.

quarta-feira, março 30, 2011

Rotary Club de Resende homenageou o Dr. Albino Brito de Matos

A cerimónia decorreu no âmbito de um jantar, que teve lugar no passado dia 18 de Março.
O Dr. Albino Brito de Matos exerceu a actividade de  advogado entre 1958 e 1977, foi provedor da Santa Casa da Misericórdia de 1981 a 1993 e destacou-se,  sobretudo,  como presidente da Câmara, ao longo de 25 anos, de 1976 a 2001.
Foi um reconhecimento merecido num  percurso sem vaidades. À frente dos destinos do município, foram construídos,  com dinheiros camarários ou  sob o seu impulso e influência,  entre outras obras e melhoramente,  as muitas estradas,  a ligar os lugares mais recônditos, a piscina municipal, ampliação do edifício camarário,  jardins de infância, escolas primárias, fontanários, sedes de junta de freguesia e vários equipamentos culturais e sociais. E, sobretudo, bateu-se afincadamente para que a ponte da Ermida, uma obra estruturante para Resende,  fosse uma realidade.
O seu longo consulado permitiu que  à sua sombra fosse sendo construída uma teia de interesses egoístas. Por isso, foi pena que não se tivesse apeado mais cedo do poder.  O slogan da sua campanha das autárquicas de 1997 “Resende vai mudar” já era um prenúncio de desgaste  e descolagem da realidade, vindo de um candidato que estava à frente do município desde 1976. Depois, em 2001, aconteceu o que se sabe.
Conheci pessoalmente o Dr. Brito de Matos há apenas 4 anos. Vi nele uma pessoa reconfortada com a obra feita, movida por um grande amor à sua terra e ao concelho. Imagino que tenha há muito concluído que em política a memória é curta e muita selectiva e a gratidão inexistente.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Em destaque

Toda a gente reparou no destaque dado ao Eng. António Borges na última reunião da Comissão Política Nacional do PS, que apareceu na mesa ao lado do Secretário-Geral, José Sócrates.
Por sua vez, na secção "quentes e boas" do Douro Hoje, desta semana, é referido que "nos bastidores da Convenção Distrital do PS de Viseu, comentava-se insistentemente que o futuro de António Borges passa por Lamego...".
Como diria o outro, o grande Arquitecto premeia os pedreiros que se destacam na construção do Templo.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Em louvor dos mais velhos

Acho que os mais velhos merecem respeito pelo que fizeram, pelo seu percurso de vida, pela sua experiência. Temos o dever de aprender com eles.  Por isso, cedemos-lhes o lugar, damos-lhes precedência, de acordo com o que eles nos ensinaram. 
Ficam em família e só em último recurso vão para lares. É em casa, tal como toda a gente,  que eles gostam de estar.
A idade é um posto. 
Mas não concordo que sejam discriminados, promovendo-se  jantares, organizando-se  excursões, prevendo -se actividades e ateliês,  exclusivamente para eles. E sobretudo de borla! Em iniciativas eivadas  de paternalismo, destinadas a colher dividendos,  sendo tratados como se fossem  uns coitadinhos e uns  diminuídos...E já agora por que há passes com grandes descontos para a 3.ª idade? Aqueles que  têm boas reformas não poderão pagar como os outros?
Só deve ser ajudado quem efectivamente precisa.
Dito isto, como é óbvio, concordo com jantares e festas em lares e outras instituições, destinadas aos seus utentes, familiares, amigos e vizinhos, como iniciativas comunitárias,  pensadas e organizadas em termos de inclusão. Já serão discriminatórias,  caso se destinem também e exclusivamente a outros idosos da localidade ou da freguesia.
Imagine-se a realização de  iniciativas em estabelecimentos para presidiários, destinadas também e exclusivamente aos gatunos da zona, ou uma festa para doentes de um hospital psiquiátrico, destinada também e exclusivamente a pessoas com doenças mentais?

quinta-feira, outubro 28, 2010

De Vinha Velha de Paus a Pimeirol: um percurso memorável

 Os artistas (carpinteiros, pintores, trolhas, pedreiros, mineiros…) trabalhavam normalmente a seco, isto é, a comida e bebida corriam por conta própria. Levavam as refeições numa marmita ou, quando o local de trabalho era mais perto,  eram levadas na hora por algum familiar. Também me coube,  uma certa vez , esta incumbência. E recordo-a por a caminhada ser bem longa. Tinha eu nove anos, trabalhava o meu pai na casa de Monsenhor Manuel de Almeida, em Pimeirol. A povoação de Moumiz era-me familiar. A Pimeirol nunca tinha ido, mas com as indicações recebidas lá fui ter direitinho. Ficou-me sempre viva na memória a eira (agora chamada Largo Monsenhor Manuel Almeida) e a capela, agora revisitadas com emoção aquando do 3.º percurso pedestre, organizado pela Associação de Amigos de S. Cristóvão.  Tive também oportunidade de visitar a casa onde nasceu e viveu Monsenhor Almeida, uma figura corajosa que se destacou, aquando dos conturbados tempos da 1.ª República, como estudante candidato ao sacerdócio em Lamego, , pelo direito da Igreja exercer livremente o seu múnus e de as pessoas poderem manifestar publicamente as opções e práticas religiosas. Foi durante vários anos o braço direito de vários bispos e o vigário geral da diocese de Lamego. Foi ele que me crismou. Recordo a sua chegada à capela das Quintãs, montado num cavalo, onde o esperava um arco de palmeiras e meia dúzia de foguetes.

quarta-feira, outubro 13, 2010

Colóquio “Religião e (in)felicidade”: palavras bem ditas*







Anselmo Borges abriu o Colóquio começando por referir que é a felicidade que move as pessoas. Nas religiões procuram a felicidade. Apresentou uma breve descrição da forma como esta foi sendo encarada e conceptualizada ao longo dos tempos. Depois falou sobre as ambiguidades das religiões. Realçou os seus contributos no plano material e espiritual, destacando o papel da religião cristã na forma como encaramos a pessoa e a dignidade que lhe está inerente. Frisou que na dura luta do dia a dia e nas condições infra-humanas de vida, a religião foi o único reduto de elevação. “A cruz de Cristo constituiu uma fonte de alívio para milhões de homens, dando sentido ao sofrimento e à morte”, referiu. Destacou as obras de caridade e o trabalho pelos mais pobres. E sublinhou o seu papel no desenvolvimento da educação e da cultura de que todos somos herdeiros. A religião foi e é fonte e fautora de felicidade. Mas não fugiu a apresentar o reverso da medalha: a associação das religiões à guerra, ao terrorismo, à inquisição, ao poder, à bruxaria, à mesquinhez... Referindo-se à missionação disse que era uma história de generosidade, mas também de poder, de dominação e de extermínio cultural. Falou também do celibato e depois da sexualidade, associada pela Igreja ao pecado. “Estou convencido que a confissão auricular, em muitas situações, pôs em causa os direitos humanos”, disse. Lamentou o afastamento do modo de vida dos primeiros cristãos, levando-o a pensar que alguns detentores do poder no seio da Igreja, ao longo dos tempos, terão concluído que no limite poderiam administrar Deus. Tudo isto tornou a religião um “espaço” de infelicidade e de descrença.
Teresa Toldy caracterizou o modo de vida da sociedade actual como um percurso incessante à volta do consumo, lazer, divertimento e prazer. “Ter fé já não é obrigatório”, disse. Crer é uma opção. Há a possibilidade de crer. As pessoas podem lá chegar através das interrogações: O que é e qual a via para uma vida plena? O que fazer para que a vida valha a pena? Qual o papel do transcendente no imanente?
Nicolás Lori disse que a alegria já “lá” está (no cérebro). Nós procuramos naturalmente o prazer. “O que é preciso é remover os obstáculos”. Chamou a atenção para a importância das relações sociais. O que mais influencia o sucesso futuro é o treino pessoal para a interacção social. As aprendizagens até aos 5 anos irão ser decisivas.
João Lobo Antunes apresentou à assembleia um texto de rara beleza, focando estudos em que a prática da religião joga um papel importante como factor instrumental na facilitação da cura ou da melhoria na doença. Chamou a atenção para a importância da gestão da esperança nos doentes e familiares. “Certa vez, a mulher de um doente pediu-me: faça tudo o que puder, mas mesmo tudo; sabe, o meu nome é Esperança”.
Andrés Torres Queiruga partiu da premissa que existe o mal, porque o mundo é finito. Num mundo limitado há imperfeições e carências. Exemplificou com o facto de uma pessoa não poder estar em dois sítios simultaneamente ou da impossibilidade de um quadrado poder ser ao mesmo tempo um círculo. O mal, segundo ele, é intrínseco ao mundo limitado e finito. Deus não é o autor do mal. Nem o diabo. Deus é amor, que criou o mundo distinto de Si para que fosse dotado de autonomia. A fé em Deus é uma opção e uma possibilidade. “Todas as religiões são de salvação”, referiu.
Paulo Borges (que substituiu Carlos João Correia) falou da via do Buda e caracterizou o budismo essencialmente como um caminho e um método terapêutico para fazer face ao sofrimento. Destacou a importância de S. Francisco de Assis na sua opção pelo budismo que procura o respeito e a harmonia entre todos os seres viventes. Salientou a importância do corpo como um todo, não fazendo sentido a separação espírito/corpo.
Manuel Reys-Mate começou por afirmar que uma parte da humanidade foi sacrificada para que a outra desfrutasse do progresso. A chamada solução final foi um projecto de eliminação física e de esquecimento. “Pareceu impossível de acontecer, mas, como aconteceu, dá que pensar”. A história está construída sobre a amnésia. A justiça faz-se na base da memória das vítimas.
José Tolentino de Mendonça descreveu as três vezes em que o Novo Testamento faz o elogio do inútil (em duas parábolas do Evangelho e na carta de S. Paulo a Filémon). Jesus é mestre do inútil. "Olhai para os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham, nem fiam. Eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles" (Mateus 6:28-29). Renuncia-se ao útil para viver o essencial. “O Deus revelado é um Deus da cruz, um Deus débil, um Deus inútil. E Deus é inútil”. Terminou com uma provocação: “O que é o elogio do inútil? É gastar o nosso tempo útil a falar do inútil; foi o que acabei de fazer”.
José Maria Castillo começou por informar a assistência que aos 78 anos abandonou os jesuítas para poder falar à vontade, poupando assim a Companhia de Jesus de “incómodos”. Do estudo da Bíblia constata-se que sobressaem três conceitos de Deus, referiu. O do Antigo Testamento é nacionalista, violento e guerreiro. O Deus de Jesus é um Deus feito homem, um Deus humanizado. O Deus de S. Paulo é herdeiro do Deus de Abraão. Jesus é “interpretado” à luz do Antigo Testamento, em que “Jesus foi constituído Messias pela graça de Deus”, sendo “divinizado”. “S. Paulo aceita e legitima a escravidão, desautoriza as mulheres, execra a homossexualidade e defende a submissão às autoridades constituídas, segundo a vontade de Deus” (na altura, o imperador era Nero, uma figura particularmente “recomendável”). O Deus de Paulo foi o que “vingou” nos primeiros concílios da Igreja, já que os seus escritos apareceram nos anos 50 e os Evangelhos a partir dos anos 70 da nossa era. O Deus de Jesus, que escandalizou e foi contra a cultura então vigente, foi ficando doutrinariamente na penumbra. “É necessário arrancar e transformar o Deus que foi indevidamente apropriado pelos hierarcas”, terminou.
*O que fica escrito são impressões desgarradas de cada conferência. Um atrevimento meu.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Colóquio “Religião e (in)felicidade”: um olhar

 Foi um Encontro onde muito se falou de felicidade, prazer, sofrimento e infelicidade. Mas apetece  perguntar:  a montante foi criada uma dinâmica de bem estar? As pessoas sentiram-se acolhidas pela organização? Andavam satisfeitas? Gostaram das conferências?
Sim. A intendência estava bem oleada. O secretariado  respondeu bem e esteve sempre atento.  A comida estava excelente. As pessoas cumprimentavam-se e falavam como se já se conhecessem. Foram trocados muitos “bons-dias” felizes. Viveram-se dois dias de novidade. Os participantes dirigiam-se para o anfiteatro (sempre cheio), onde sabiam  que os esperava a palavra  livre,  reflectida, convicta e corajosa.  Anselmo Borges foi um árbitro atento que fez cumprir horários, gerindo bem o tempo de cada conferência e das intervenções da assistência.  Em cada sessão, apetecia  continuar, aumentando a vontade de voltar.
O local onde decorreu o Colóquio também contou para este “bom clima”. O edifício do Seminário, construído nos anos 60, de linhas geométricas,  marca a diferença pela harmonia e beleza, conjugando austeridade e algum conforto.
Os participantes voltaram para casa com mais fé? Mais comprometidos com Deus? Não sabemos. Porque desconhecemos em que Deus as pessoas acreditam. Saíram, contudo, com mais dados e instrumentos de análise para retomarem a adesão à Palavra libertadora  do Evangelho, anunciadora de uma vida digna e feliz já na terra. A religião legal,  burocratizada e institucional e o Deus da ira, da vingança, da guerra e do poder ou legitimador do poder (no fundo, um deus de infelicidade) foram zurzidos com veemência. Muitas aprendizagens, consideradas como verdades, foram reconsideradas à luz de uma nova visão da compreensão da história e do mundo, para a qual contribuíram os avanços científicos e novas metodologias de investigação, designadamente a aplicação do método histórico-crítico como chave interpretativa das narrações bíblicas.
O que foi dito abala o que se aprendeu, mas ajuda a posicionar-nos no campo correcto e ir à luta, dialogando com os que põem em causa, muitas vezes justamente, e de forma recorrente, o percurso e as posições da Igreja e as concepções de Deus, veiculadas pelo Velho Testamento. Alguns críticos saltam até o campo da razoabilidade para a chacota. Em relação a estes estamos conversados. Contudo, com os outros é possível dialogar a partir do reconhecimento comum de factos que ocorreram no passado, designadamente da instrumentalização da religião, que distorceu a mensagem originária. E é enriquecedor para todos. O diálogo com o mundo cada vez mais secularizado supõe conhecimento , abertura cultural e convicções (que também se vão construindo).  Caso contrário, sobra a fuga,  o enquistamento e o definhamento da Igreja, cujo legado é insubstituível.
Neste sentido, este Colóquio fortaleceu ainda mais a fé daqueles que acham que deve ser apoiada no discernimento e na razão, aclarando situações que muitos teimam em manter dúbias. Foi uma chave que irá abrir muitas portas. Tem razão, pois, o Superior Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova, quando na sessão de encerramento afirmou que estes Colóquios (que devem continuar)  cumprem  uma missão cívica e cultural.
O programa deste Colóquio uniu e reuniu  gente da cultura, crentes e não crentes. Apresentou novas perspectivas e novas propostas. Fortaleceu a esperança.  Trouxe alegria. Por isso, foi um festa. Que vai continuar.